terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Conto a Cotoquinho (Orlando França)

    E eis que em uma tarde chuvosa, como a muito não se via e com o entardecer mais escuro do que de costume, Cotoquinho adentrou o apartamento. Muitas dúvidas em sua mente, indagações sequiosas por respostas, mas a maior delas pairava acima de todas: POR QUÊ?


    Cotoquinho não aguentava mais; estava farto daquilo. Há tempos que a situação se repetia e repetia e repetia... lugares diferentes, pessoas diferentes e o problema surgia de forma diferente, porém, o mesmo problema. E Cotoquinho se perguntava: PORQUE?

    Ele não bateu à porta; chutou-a, jogou-a longe! Lá dentro avistou encolhido no sofá a raiz do seu problema, como se soubesse o que aconteceria, como se houvesse lido os pensamentos de Cotoquinho, como se aquilo já fosse previsível. Estava quase encoberto, como se o lençol fosse protege-lo da fúria de Cotoquinho. Mal sabia ele que  Cotoquinho estava irredutível Olhou-o bem nos olhos e com todas as forças que lhe restavam, gritou:
  - Escutai-me bem! Qual o teu problema?

 - Não pensas no que fazes? Achas realmente que é normal agir assim por impulso, sem pensar nas consequências de teus atos? Achas realmente que a vida é um mar de rosas, que basta quererdes algo e já o terás assim? Acorda para vida!

 - Analise por um momento tuas ações! Não vês que desta maneira estas matando a nós dois? Cada vez que fazes algo assim é como se um punhal alcançasse-me a alma; cada fez que praticas essas atitudes impensadas, cada vez que ages assim, por impulso, fere-me também! Pares com isso! Ordeno-te que pares imediatamente!

    Neste instante, aquele ser no sofá encontrava-se com a cabeça baixa. Será que adormecera? Será que nem ligara para as duras e reais falas de Cotoquinho? Mas quando Cotoquinho se aproxima, observa uma poça no chão, escorrendo pelo sofá, provenientes dos olhos do ser que se encontrara sentado. Ele chorava copiosamente. Aquilo mexeu com a mente de Cotoquinho, mas não o suficiente para cala-lo:

  - Agora choras de remorso? Agora não adianta mais, a besteira já fora feita! Já disseste o que não devias, da forma que não devias. O que resta agora é que aprendas com teus erros e não os cometas novamente; aprende essa lição e pare de se equivocar tanto. Errar tem limite!

    Cotoquinho observa que o ser do sofá consegue, a longos esforços, elevar a cabeça. Abre vagarosamente os olhos, enxuga com dificuldade as lágrimas que teima em verter de seus olhos, fita Cotoquinho por breves instantes e então fala numa voz quase rouca:
  - Desculpe-me, mas é que eu gosto tanto dele...

    Neste instante, Cotoquinho não se segura, corre imediatamente para o sofá, segura-o firme nas mãos, olha-o bem e fala:
  - Eu lhe entendo. Pior que lhe entendo, meu Coração...
    Então Cotoquinho abraça o Coração e os dois, aflitos, choram nos últimos raios do sol que se põe na janela de mais um dia de suas vidas!

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